_Olá, eu sou a May. - sorri para o garoto a minha esquerda. Ele me encarou, seus grandes olhos azuis atordoados, como se não pudesse acreditar que eu estava falando com ele. Eu não sabia se isso era bom; mordi o lábio, tentando parecer magoada, embora eu não me importasse. Ele pareceu se recuperar e sorriu.
_Oi. Ian. - ele estendeu a mão; eu estranhei a formalidade, mas apertei a mão que ele havia me oferecido. Aquele colégio era mesmo cheio de frescura. - Você é aluna nova? - assenti.
Meu pai, que sempre fora ausente, havia começado a se intrometer na minha vida. Não satisfeito em me atormentar, passou a incomodar minha mãe para me mudar de colégio, alegando que a adorada instituição de ensino médio onde eu estudava não estava a minha altura. Por fim, mamãe ficou tão irritada pela torrente de absurdos proferida por meu progenitor que concordou em me mandar para este colégio prepotente, cheio de gente frívola. Hipócritas nojentos. Voltei a interpretar meu papel.
_Mas então, em que série você está? - perguntei inocentemente.
_No último ano. - ele estufou ligeiramente o peito; eu não deixei transparecer, mas por dentro estava revirando os olhos. - E você?
_No segundo ano. Quer me mostrar a minha sala? - eu sabia que estava sendo um pouco oferecida, mas eu calculava que, se eu fingisse ter me tornado fútil e passasse a ter como companhia apenas pessoas superficiais, como todos naquele colégio enjoado, meu pai perceberia o erro colossal que havia cometido ao me mandar para lá e se redimiria, permitindo que eu voltasse para o meu antigo e amado colégio.
Ian ergueu uma sobrancelha em arrogante surpresa. Bufei.
_Como quiser. - me levantei, impaciente.
_Espere! May! - ele chamou enquanto eu me afastava. Dei de ombros e não reduzi a minha velocidade. Se ele quisesse, podia me alcançar. Arrogante, prepotente! - É claro que eu te levo até sua sala. Eu só fiquei um pouco surpreso, você é, hm, direta. - explicou.
Eu parei e olhei para ele, me perdendo por um segundo no oceano profundo que eram seus olhos. Me recuperei do lapso de controle e revirei os meus olhos para ele, dessa vez abertamente.
_Não fique muito agitadinho, - debochei. - eu apenas não conheço o lugar. - sorri perversamente.
Ele corou e limpou a garganta, constrangido. Eu sorri; sua timidez era adorável. Ele fez um gesto tão antigo quanto a humanidade, como se dissesse “primeiro as damas”. Eu contive uma risada e avancei.
Enquanto caminhávamos em um silêncio ligeiramente constrangido, analisei o perfil dele. Ian tinha um nariz reto e anguloso, sobrancelhas arqueadas, grandes olhos azul-escuros e uma boca perfeita de lábios cheios e vermelho-escuros. Seu queixo era um pouco empinado, dando-lhe uma aparência aristocrática. Ele notou que eu o olhava.
_O que foi? - ele corou novamente quando eu não desviei o olhar.
_Você é bonito. - anunciei, desavergonhada. Que palavra ele havia usado? Ah, sim. Eu era direta.
Ele enrubesceu furiosamente e desta vez não contive o riso.
_Você é estranha. - ele me acusou, uma expressão reprovadora tomou seu rosto. Ele claramente não gostava de ficar envergonhado.
_Estranho é o novo normal. - zombei com a voz esganiçada.
Ele riu e depois, repentinamente, estacou. Ian olhava ameaçadoramente para alguém a sua esquerda. Segui seu olhar e vi o garoto mais bonito que eu já havia visto. Porém, a parte de mim que estava sã me alertou sobre a postura perigosa que ele assumia: um encrenqueiro. Voltei a realidade.
Sacudi um Ian imóvel com firmeza e rumei para o corredor a minha frente, sem olhar para o garoto lindo, mas potencialmente perigoso, quando passei por ele. Ian me seguiu.
Continuamos andando silenciosamente, até que alguém cutucou meu ombro. Eu me virei para ver quem era.
_Oi. - ele me lançou um sorriso torto. - Eu sou o Michael. E você é? - eu sorri indiferente, enquanto ele arqueava as sobrancelhas interrogativamente.
_May. - eu corei um pouco sob seu olhar intenso.
_E então, May? É nova por aqui certo? Já ganhou o nosso pequeno Ian, não? - ele deu um tapinha amigável Ian, que se retraiu. E o que ele quis dizer com “ganhou Ian”?
Michael era deliciosamente perturbador. E sabe o que dizem, nada como um mistério para atrair uma garota curiosa.
_Sim, eu sou nova. O Ian foi bem simpático comigo. - dei-lhe meu sorriso mais encantador.
_Ele não é mesmo atencioso? - Michael zombou. Ian cruzou os braços firmemente no peito. Homens: o sexo frágil.
Enquanto eles travavam uma guerra silenciosa para ver quem conseguia encarar o outro por mais tempo, desviei meus olhos para a saia plissada que era parte do uniforme. Era cinza e ia até o meio das minhas coxas. Combinada com a camiseta pólo justa, eu parecia perfeitamente com uma líder de torcida. “Porque é exatamente isso que eu quero”, disse sarcasticamente para mim mesma.
Então notei pela primeira vez uma turma de garotas reunidas. Elas pareciam com animadoras. Bufei; como meu pai pudera fazer isso comigo? Ele queria que eu fosse como elas?
De repente, enquanto eu as encarava, aconteceu algo inesperado. A garota do meio, aparentemente a líder do grupo de “clones”, tagarelava sobre algo tão frívolo quanto ela, tenho certeza, quando a garota ao lado dela pegou um bisturi sem ninguém perceber e deslizou pela lateral da saia da garota.
Por sorte o choque clareou meus pensamentos ao invés de embaralhá-los e eu pude apreender o significado daquele gesto. A garota do bisturi queria envergonhar a outra e o meio que ela havia escolhido para certificar-se de que isso ocorreria foi rasgar a saia da “amiga”.
Assim que me dei conta disso, tirei a toalha de natação de dentro da minha mochila e entrei no grupinho lotado e sufocante quando a saia da menina estava caindo. Todas as suas amigas estúpidas a encararam, estarrecidas.
Revirei os olhos e envolvi a loura seminua antes que alguém, exceto os clones sem cérebro, a visse. Arrastei-a para a porta que sinalizava o banheiro feminino.
_A garota que estava a sua direita fez isso com a sua saia, aquela morena de cabelo enrolado. Ah, eu sou a May, aliás. - anunciei.
Ela suspirou e assentiu, como se a tal garota fosse capaz disso.
_Sou Lisa. Obrigada por me tirar daquela situação.
Lisa abriu a mochila e tirou um short de ginástica do colégio. Ela o vestiu e me devolveu a toalha, sorrindo agradecida.
_Você é a garota nova! A filha do diplomata, não? - ela perguntou.
Assenti, carrancuda e pronta para encerrar o assunto. Lisa sorriu desculpando-se ao notar que era um assunto delicado.
_Vem, vamos voltar para lá! Você pode ficar conosco.
Sem esperar por resposta, ela me arrastou para junto das amigas. A menina do bisturi me olhava com puro ódio.
_Jane, você está fora; May, você está dentro. - Lisa declarou.
A morena, Jane, saiu ainda mais furiosa. Eu era a personificação da confusão. Lisa sorriu, condescendente.
_O baile de formatura do último ano é em duas semanas. É tradição aqui fazer a festa três meses antes da festa de formatura. - explicou.
Eu não me incomodei em zombar da tradição ridícula: era uma festa e não havia nada melhor que isso.
_Parece… interessante. - comentei.
_Sim, de fato é. Ah! E só mais um detalhe: você vai precisar de um par. Todas vamos precisar. Vimos você conversando com o Ian e o Michael, então vamos deixá-los para você. - ela olhou para uma das meninas com severidade. Algumas pareceram decepcionadas.
Dei de ombros. Não devia ser tão difícil conseguir um par, e eu podia levar alguém da outra escola, se fosse preciso.
Percebi que Michael e Ian ainda estavam parados no mesmo lugar, agora olhando para mim.
_Vem cá, May. - Michael gritou, como se fôssemos íntimos. Me despedi das garotas e fui falar com eles.
_O que foi? - perguntei delicadamente.
_Eu e o Ian aqui estávamos no meio de uma discussão. O problema é que ambos queremos levá-la à festa de formatura. - Michael anunciou isso com tamanha naturalidade que eu esqueci de ficar constrangida.
_Bem, é uma situação difícil. - respondi. - Como não conheço nenhum dos dois, não estou apta a escolher um de vocês ainda. Agora, quem pode me mostrar minha sala? Não quero me atrasar.
_Sinto muito Michael, mas eu vou levá-la até a sala dela. May já havia me pedido. - Ian declarou. Eu sorri, meu ego inflado.
_É justo. - Michael declarou. - Senhoras. - fez uma reverência pomposa e debochada para nós e se retirou.
_Então você quer me levar para a festa? - perguntei, rindo.
Ele sorriu, confiante. Não combinava com seu aspecto tímido.
_É claro. E você vai acabar percebendo que o Michael é um babaca.
Dito isso, ele me deixou na minha sala e saiu.
* * *
Vou resumir o que aconteceu na semana seguinte, pois não houve nada extraordinário. Eu passei todo o meu tempo livre com Ian ou Michael. Lisa e suas amigas me levaram às compras; elas só falavam sobre o baile. Em algum ponto desse semana, parei de desejar voltar para a minha antiga escola e comecei a me divertir. Não sei como isso aconteceu.
Eu estava cada vez mais indecisa sobre com quem ir; ambos eram tão maravilhosos, cada um com suas peculiaridades que os tornavam únicos.
Então, na primeira noite da semana da festa, eu cheguei em casa relativamente tarde, pois havia saído para jantar com Michael. Meu celular estava na estante do meu quarto, como eu o havia deixado antes de sair. Eu o peguei para checar meus recados. Tinha apenas um.
Era uma voz estranha, como se uma garota tentasse soar como um homem. Dizia o seguinte: “May, não vá à festa com nenhum dos dois. Eles não te pertencem; são meus!”. Assim mesmo, sem saudação, sem revelar nomes.
Naquela noite eu sonhei que ia com Michael e ele me abandonava no meio da festa. Depois o sonho mudou; nessa segunda parte, eu havia concordado em ir com Ian e ele não aparecera. Acordei, sobressaltada.
Na manhã seguinte, reuni os dois e anunciei:
_Acho que devíamos ir todos juntos. - eles me olharam com expressões repletas de incredulidade e gargalharam.
_Se é tão difícil para você escolher, podemos tirar na sorte. - sugeriu Michael. Eu assenti, era a única solução.
E eles jogaram a moeda. O vencedor foi Michael e eu apreciei. Ian ficou um pouco decepcionado, mas aceitou. Acho que não havia como aquele problema ter se resolvido melhor. Michael olhou bem no fundo dos meus olhos e me beijou; felizmente, só fez isso depois que Ian saiu.
Enquanto nos beijávamos, alguém me puxou pelos cabelos com força suficiente para me afastar de Michael e fazer lágrimas umedecerem meus olhos. Olhei para minha agressora: Jane, a garota do bisturi.
Ela se jogou em cima de mim, berrando “Eu avisei para ficar longe deles!” até que Michael, Ian e mais um garoto conseguiram controlá-la. Jane havia me arranhado com suas unhas de patricinha demoníaca até o ponto de ruptura da pele; eu sangrava.
A garota psicótica foi levada para uma “clínica de reeducação mental”. Minutos depois de ela partir para o sanatório, eu recebi um recado: “Relaxe. Eu voltarei, vaca. Beijos, J.”
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Posted on May/30/2011
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