Eu acordei sobressaltada, o coração acelerado. Um suor frio e grudento orvalhava minha testa. Aquele sonho, não, aquela lembrança fora real demais, vívida demais para ser boa para mim. Esperei meu coração voltar ao normal e fui para a sala de estar, convencida de que o sono, agora, era uma causa perdida.
Liguei a televisão em algum programa bobo. Meus olhos fitavam a tela, mas a minha mente divagava; ela estava viajando para a noite da lembrança.
“Eu estava no meu quarto, porém, aflita demais para dormir, dirigia toda a minha tensão para algo produtivo: arrumar as gavetas. O motivo para a minha inquietação era que, duas noites atrás, sequestradores haviam invadido a casa ao lado da minha, levando com eles meu vizinho rabugento, sr. Heathcliff.
A polícia ainda o estava procurando, mas, sem novas pistas, estava difícil. De repente, alguém bateu na porta. Eu congelei, aterrorizada, já que estava muito tarde para visitas. As batidas eram incessantes e cada vez mais desesperadas. Uma voz esganiçada e familiar falou:
_Fernanda, está ai? Fernanda, abra já essa porta. - ordenou Heathcliff com seu sotaque britânico arrastado, incapaz de esconder o pânico em sua voz.
Eu, ainda um pouco catatônica pelo choque, abri a porta vagarosamente. Um homem encharcado de lama esgueirou-se rapidamente pela fresta que eu havia deixado. Um grito se formou em minha garganta, antes de eu perceber que o homem era mesmo o sr. Heathcliff.
Ele desabou na poltrona mais próxima, murmurando algo ininteligível.
_O que aconteceu, senhor? Está ferido? Com fome? - perguntei, preocupada.
_Fome, sim. - ele suspirou, recostando a cabeça na poltrona.
Preparei comida para ele e o acomodei em minha cama. Dormi no sofá logo depois de ligar para sua família.”
Batidas na porta me trouxeram de volta ao presente. ‘Ele está bem’, assegurei a mim mesma, ‘estamos todos bem’. Abri a porta. Meus olhos se toldaram, cegos; senti alguém prendendo meus braços para trás.
_Menina tola! Devia ter deixado o velho na rua, para morrer. - foi a última coisa que eu ouvi antes de desmaiar - ou morrer, eu não sabia…