Confissões de um leiteiro

Quando eu era pequeno, mamãe sempre se preocupou em não me iludir a respeito do mundo lá fora. Ela dizia: “você não vai ser ninguém na vida” e “vai acabar na cadeia igual ao imprestável do seu pai”. Eu sei que parece duro, mas eu também sei que ela só queria o melhor pra mim, eu espero, pelo menos.

De qualquer jeito, eu esqueci disso tudo quando mamãe morreu. Eu tinha dezenove anos e estava em casa dormindo, quando me ligaram da delegacia dizendo que ela, minha santa mãezinha, havia sido assassinada, vítima de bala perdida, num tiroteio entre gangues.

Depois disso, eu meio que perdi o rumo na minha vida. Larguei a faculdade, terminei com a namorada, me tornei alcoólatra e leiteiro. Sim, isso é cómico de um jeito doentio: eu era um leiteiro alcoólatra.

Até que um dia eu decidi sair dessa vida. Entrei pros Alcoólicos Anônimos e voltei pra faculdade. Por algum motivo, não me lembro qual, não tentei arrumar outro emprego e continuei leiteiro.

Estava quase superando meu vício quando fui entregar leite, numa dessas manhãs em que eu estava muito sonolento. Sem querer, eu tropecei no vaso de samambaia ao lado da porta, e um desgraçado de um gato guinchou. Eu larguei o leite e já estava indo embora quando um velho desnorteado apareceu com uma espingarda.

Eu comecei a gritar e tudo escureceu. Antes de apagar, eu só conseguia pensar que a vida tem um senso de humor distorcido e cruel…